domingo, 26 de março de 2006

Contra o conformismo

Desenganem-se aqueles que pensam que a situação em que o Sporting caiu se vai resolver nas próximas eleições.
Vivemos um período trágico e para o inverter exige-se mais do que a solução simplista de encontrar o nome do próximo salvador...
No plano financeiro, o Clube aparenta estar num ponto de comprovada derrapagem. Apesar das molduras humanas confortavelmente preenchidas à volta do estádio, reina uma enorme indiferença por tudo o que se passa no Clube, para além do futebol. As estruturas dirigentes estão intersticialmente impregnadas de diversos males profundos que os Sportinguistas se habituaram a aceitar e se preparam para aceitar de novo como um "mal menor".
Nestas eleições que se avizinham a reflexão essencial que, de mente limpa teremos, todos nós, de fazer é o que é, o que queremos que seja e o que pode, de facto, ser o Sporting.
Ninguém está fora da carroça! Não há milagres!
Ouço com enorme perplexidade que uma solução Miguel Ribeiro Telles seria aceitável. Ouço com uma ainda maior perplexidade que uma solução FSF seria outra solução aceitável!
Vou ser sincero com todos e dizer-lhes o que penso, pessoalmente, sem subterfúgios, sem truques de "politicamente correcto", nem palavras mansas para adormecer: acho que nenhuma solução para a Direcção do Sporting que passe, ou inclua qualquer personagem da dinastia que dirigiu o Clube até agora é boa! Poderá resolver problemas a curto prazo. Mas, será sempre mais do mesmo!
Não me conformo com o conformismo em que se caiu!
Aceitar uma solução desse tipo é garantia de que, daqui a dois, cinco ou dez anos, teremos a repetição das cenas a que ciclicamente vimos assistindo: turbulência directiva, instabilidade desportiva, caos financeiro, insultos e lenços brancos, Assembleias, mais insultos, contestação e novas eleições!
Assim tem sido, assim será.
O Sporting projecta hoje para a sociedade portuguesa, quer queiramos, quer não, a imagem de um clube ingovernável, sujeito como todos os outros às contingências da "bola na trave", sem meios próprios de subsistência, previsível, sem projecto, sem conteúdo. O Sporting para a generalidade dos Portugueses é mais uma dessas agremiações que recolhem os privilégios de um estado negligente e vivem à pála de uma sociedade distraida...
Diferentes, portanto, em quê?
Na linguagem dos nossos dirigentes, o Sporting nunca é a realidade triste que é de facto. É sempre melhor, ou menos deficitário que o vizinho. E, não nos esqueçamos, o Sporting é um dos "grandes"!
Ah! pois sê-lo-á, certamente, na medida justa do seu défice...

Ouço, por outro lado, muitos Sportinguistas e sinto que existe um claro descontentamento com esta situação. Mas, gela-se-me o sangue quando sinto, em contrapartida, o seu conformismo no que se refere às soluções e vejo que da reflexão dos Sportinguistas mais preocupados (já não falo dos comentadores, sejam eles simplesmente cretinos ou vendidos!) só sai receio pela ausência de alternativas, ou soluções... de continuidade. E as soluções estão sempre nos outros! Nunca em nós próprios... Ora, não podemos exigir aos nossos atletas que dêem tudo o que têm pelo nosso clube, para nós depois, na nossa esfera própria de intervenção, nos demitirmos miseravelmente...
Escrevi algures por aí que o Sporting existe porque alguém o inventou, mas que é também um Clube sujeito hoje, claramente, à possibilidade de desaparecer.
Tudo isto porque os sócios (incapazes, só por si, de garantir a sobreviência do Clube) impedem, com a sua indiferença ou crença ingénua em soluções directivas desacreditadas, que o Sporting se adapte aos tempos e exigências de hoje. Essa sim, é uma verdadeira "minoria de bloqueio" no contexto do universo Sportinguista!
Pois bem: a solução somos nós! Os que hoje dirigem o Sporting e o levaram ao desastre que a todos aflige também "são nós", mas já provaram que não merecem continuar a ter a honra de dirigir este Clube. Portanto, a solução está em nós, mas "noutros nós."
Apenas necessitamos de saber que barco queremos e como se pilota. Depois vem o piloto. É uma discussão a que não nos podemos furtar. Não podemos é fazer o contrário, i.e.: arranjar o piloto e depois comprar um barco para ele dirigir. Essa solução deu no que deu...
Quando soubermos o que queremos podemos, pois, discutir pessoas. Há muitas soluções possíveis e, já o escrevi aqui, na falta de um nome único alternativo --não comprometido, é certo, com o descalabro que têm sido estes últimos dez anos de dinastia Roquettiana--, uma delas pode, inclusivamente, passar por uma Direcção colectiva que junte os melhores e que, para além de proceder à sua gestão corrente, estabeleça as bases de uma discussão sobre o que queremos para o Clube. Discussão que deve incluir as modificações que deverão ser introduzidas nos Estatutos para os adaptar ao Sporting de hoje e as reformas organizativas que terão de ser feitas para tornar todo este complexo mais ágil, eficiente e a dar resultados. E que, sobretudo, crie condições para a participação activa, participação activa e mais participação activa de todos nós!!!
Os Estatutos até prevêem uma solução colectiva...
Agora, uma coisa é certa: baixar a cabeça perante a inevitabilidade de uma solução na continuidade parece-me uma tragédia que tem a palavra DESASTRE escrita por todos os lados!
E apenas conseguiremos com isto um "período de carência" que cada vez vamos pagar mais caro. Não estamos todos já tristemente de acordo que qualquer coisa vai ter de ser vendida para salvar o Sporting a curto prazo? Até onde esperam os Sportinguistas que os recursos do Clube podem ir?
De que raio andam à espera os Sportinguistas?

1 comentário:

  1. Deixa-me que te diga que preconizo um pouco a ideia da Direcção Colectiva, mas não exactamente no teu sentido.

    Parece-me claro que, apesar da minha grande vontade em castigar os irresponsáveis que colocaram o Clube nesta situação, teremos de optar por uma estratégia mais tolerante, porque esse deve ser o caminho para um Sporting mais forte.

    Existem nomes "marcados" a quem não dou perdão, mas os outros têm de fazer parte do esforço colectivo.

    No entanto a minha ideia é mais a de 3 orgãos (Conselho Directivo, Fiscal e A Geral) a trabalharem de forma mais independente, cada qual com responsabilidades concretas na gestão do Clube e SOBRETUDO sem se cair novamente no erro dos "yes men" utilizado até agora.

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